sábado, 12 de agosto de 2017

«Se morrer, dá muito fruto»

Ao ver que levavam o bispo Sixto para o martírio, Lourenço pôs-se a chorar. Não era o sofrimento do seu bispo que lhe arrancava lágrimas, mas o facto de este partir para o martírio sem ele. Por isso, pôs-se a interpelá-lo nestes termos: «Onde vais, meu pai, sem o teu filho? Apressas-te tanto em direção a quê, sem este teu diácono? Tu tinhas por hábito nunca oferecer o sacrifício sem ministro! [...] Dá pois prova de que escolheste um bom diácono, a quem confiaste o ministério do sangue do Senhor, com quem partilhas os sacramentos; recusar-te-ás a comungar com ele no sacrifício do sangue?» [...] 

Sixto respondeu a Lourenço: «Não te esqueço, meu filho, nem te abandono. Mas deixo-te maiores combates. Sou velho e já só aguento uma luta ligeira. Mas tu és jovem e hás de obter um triunfo bem mais glorioso contra o tirano. Logo virás ter comigo. Seca essas lágrimas. Dentro de três dias, seguir-me-ás.» [...] 

Três dias depois, foi dada ordem de prisão a Lourenço. Ordenaram-lhe que levasse os bens e os tesouros da igreja e ele prometeu obedecer; no dia seguinte, apresentou-se na companhia dos pobres. Perguntado onde estavam os tesouros que devia ter levado, apontou para os pobres, dizendo: «Eis os tesouros da Igreja. Teria Cristo tesouros melhores que estes, acerca dos quais disse: "Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes"?» (Mt 25,40) Lourenço apresentou aqueles tesouros e saiu vencedor, porque o seu algoz não teve vontade de lhos tirar. Mas, cheio de raiva, mandou-o queimar vivo.

Ambrósio (c. 340-397), bispo de Milão 
Sobre os Ofícios dos ministros I, 84; II, 28; PL 16, 84