sábado, 29 de julho de 2017

«Uma mulher, de nome Marta, recebeu-O em sua casa»

As duas irmãs Marta e Maria eram muito próximas, não só pelo sangue, mas também pela piedade. Ligadas ambas ao Senhor, colocaram-se, com um só coração, ao seu serviço durante o tempo da sua vida neste mundo. Marta recebeu-O como se recebe um viajante. E contudo, era uma serva que acolhia o seu Senhor, uma doente que acolhia o seu Salvador, uma criatura que recebia o seu Criador. [...] Com efeito, o Senhor tinha querido tomar a forma de servo, a fim de poder ser alimentado por servos. [...] 

Eis que o Senhor é acolhido como hóspede: «Veio para o que era seu, e os seus não O receberam. Mas, a quantos O receberam, aos que nele creem, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus» (Jo 1,11-12). Os servos assim adotados tornaram-se seus irmãos, os cativos assim libertados tornaram-se co-herdeiros com Ele. Mas que nenhum de vós diga: «Felizes aqueles que tiveram a dita de receber Cristo em sua casa!» Nâo tenhas pena nem te lamentes por teres nascido numa época onde não podes ver o Senhor em carne e osso. Pois Ele não te retirou o seu favor, Ele que declarou: «Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes» (Mt 25,40).

Santo Agostinho (354-430), 
bispo de Hipona (norte de África), 
doutor da Igreja 
Sermão 103, 1, 2; PL 38, 613 

quarta-feira, 26 de julho de 2017

«Quem tem ouvidos, oiça».

Um semeador foi semear o seu grão e uma parte caíu ao longo do caminho, outra parte em terra boa. Três partes perderam-se, só uma deu fruto. Mas o semeador não deixou de semear o seu campo; bastou-lhe que uma parte fosse conservada para não suspender o seu trabalho. É impossível que o grão que eu lanço neste momento no meio de tão vasto auditório não venha a germinar. Se nem todos me escutarem, um terço me escutará; se não for um terço, será um décimo; se nem um décimo me escutasse, desde que um único membro desta numerosa assembleia me ouvisse, eu não deixaria de falar.

A salvação de uma só ovelha não é pouca coisa. O Bom Pastor deixou as outras noventa e nove para ir a correr atrás da ovelha que se tinha perdido (Lc 15,4). Também eu não poderia desprezar quem quer que fosse. Mesmo que seja só um, é um homem, um ser querido por Deus. Mesmo que seja um escravo, não desdenharei dele; porque não procuro a condição social, mas o valor pessoal, não procuro o poder ou a servidão, mas o homem. Mesmo que só haja um, será sempre um homem, aquele para quem o sol, o ar, as fontes e o mar foram criados, os profetas enviados, a Lei dada. Será sempre aquele ser por quem o Filho único de Deus Se fez homem. O meu Senhor foi imolado, o seu sangue foi derramado, e eu ousaria desprezar quem quer que fosse? [...]

Não, não deixarei de semear a palavra, mesmo que ninguém me escute. Sou médico, proponho o remédio. Devo ensinar, foi-me dada ordem de instruir, porque está escrito: «Estabeleci-te como sentinela sobre a casa de Israel» (Ez 3,17).

João Crisóstomo (c. 345-407), 
presbítero de Antioquia, 
bispo de Constantinopla, 
doutor da Igreja

domingo, 23 de julho de 2017

«Foi um inimigo que fez isso.»

Escrevo-vos, irmãos bem amados, para que saibais que, desde o dia em que Adão foi criado até ao fim do mundo, o Maligno fez e fará guerra constante aos santos (Ap 13,7). [...] Contudo, são poucos os que se dão conta de que o saqueador das almas coabita com eles nos seus corpos, muito perto das suas almas. Vivem na tribulação e não há neste mundo ninguém que os possa reconfortar. Por isso, olham o olhar para o Céu e aí colocam a sua esperança, contando receber alguma coisa dentro de si próprios. Desta forma, e graças à armadura do Espírito (Ef 6,13), vencerão. Com efeito, é do Céu que recebem a força, que permanece escondida aos olhos da carne. Enquanto procurarem Deus com todo o seu coração, a força de Deus virá secretamente em seu auxílio a todo o momento. [...] É precisamente porque tocam com o dedo na sua fraqueza, porque são incapazes de vencer, que eles solicitam ardentemente a armadura de Deus e, assim revestidos com o equipamento do Espírito para o combate (Ef 6,13), tornam-se vitoriosos. [...] 

Sabei, pois, irmão bem amados, que em todos os que preparam a sua alma para se tornarem terra boa para a semente celeste, o inimigo apressa-se a semear o seu joio. [...] Sabei também que aqueles que não procuram o Senhor com todo o coração não são tentados por Satanás de forma tão evidente; é mais às escondidas e por manhas que ele tenta [...] afastá-los de Deus. 

Mas agora, irmãos, tende coragem e não receeis. Não vos deixeis assustar com imaginações suscitadas pelo inimigo. Na oração, não vos entregueis a uma agitação confusa, multiplicando gritos sem nexo, mas acolhei a graça do Senhor na contrição e no arrependimento. [...] Tende coragem, reconfortai-vos, resisti, preocupai-vos com a vossa alma, perseverai zelosamente na oração. [...] Porque todos os que procuram Deus com verdade receberão uma força divina na sua alma e, recebendo essa unção celeste, sentirão em si o gozo e a doçura do mundo que há de vir. Que a paz do Senhor, aquela que esteve com todos os santos pais e os guardou das tentações, permaneça também convosco.
Macário (?-390), Eremita do Egipto 
Mensagens espirituais, n.º 51 

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Valores de Servo


Mas, afinal o que significa ter valores de servo?
Em que implica, para o líder espiritual, seguir esses valores?
Ter valores de servo significa exercer o "direito" de entregar os seus direitos a Deus, que julga retamente.
Significa, também, ser um equipador e modelo para os outros.
Isto não é o que, normalmente, espera-se do líder, especialmente quando a pessoa ou organização segue a clássica visão piramidal, onde o líder está sempre posicionado acima de seus seguidores, sendo servido por eles.
A visão cristã de liderança, porém, é diametralmente oposta à visão clássica, pois se baseia em uma convicção alternativa, onde o líder espiritual serve liderando e lidera servindo.
Na verdade, o líder espiritual nada mais faz do que imitar Jesus, "que não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate de muitos" (Mateus 20:28).
Se o líder espiritual não entender a dimensão do que significa ser servo, ele viverá em constante tensão voltando apenas para si mesmo, exigindo seus direitos, sua posição, etc.
O líder cristão deve liderar servindo, capacitando os outros para multiplicar o ministério.
Elias Dantas em O desafio da liderança.
Rev. Elias Dantas, foi meu professor no 1º ano do SPS em Campinas. 
Hoje vive nos Estados Unidos

sexta-feira, 7 de julho de 2017

«Prefiro a misericórdia»

Ao amares o teu inimigo, desejas que ele seja para ti um irmão. Não amas o que ele é, mas aquilo em que queres que ele se torne. Imaginemos um pedaço de madeira de carvalho em bruto. Um artesão hábil vê essa madeira, cortada na floresta; a madeira agrada-lhe; não sei o que quer fazer dela, mas não é para a deixar como está que o artista gosta dela. A sua arte faz com quepense em que é que se pode transformar essa madeira; o seu amor não é dirigido à madeira em bruto: ele ama o que fará com ela e não a madeira em bruto. 

Foi assim que Deus nos amou quando éramos pecadores. Na verdade, Ele disse: «Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes». Ter-nos-á Ele amado pecadores para que permaneçamos pecadores? O Artesão viu-nos como um pedaço de madeira em bruto, vindo da floresta; porém, o que Ele tinha em vista era a obra que nela faria e não a madeira em si, nem a floresta. 

Contigo passa-se a mesma coisa: vês o teu inimigo opor-se a ti, encher-te de palavras mordazes, tornar-se rude nas afrontas que te faz, perseguir-te com o seu ódio. Mas tu sabes que ele é um homem. Vês tudo o que esse homem fez contra ti, mas também vês nele aquilo que foi feito por Deus. Aquilo que ele é, enquanto homem, é obra de Deus; o ódio que te tem é obra dele. E que dizes tu para contigo? «Senhor sê benevolente para com ele, perdoa-lhe os pecados, inspira-lhe o teu temor, converte-o.» Não amas nesse homem aquilo que ele é, mas aquilo que queres que ele venha a ser. Assim, quando amas um inimigo, amas nele um irmão.

Santo Agostinho (354-430), bispo de Hipona (norte de África), doutor da Igreja 
Comentário sobre a primeira carta de João, § 8,10 

quarta-feira, 5 de julho de 2017

A libertação dos cativos

Naquele dia, Jesus Cristo entrou no abismo e conquistou os infernos. Naquele dia, «Ele despedaçou as portas de bronze, quebrou os ferrolhos de ferro», como disse Isaías (Is 45,2). Reparemos bem nestas expressões. Não é dito que «abriu» as portas de bronze, nem que as tirou de seus gonzos, mas que «as despedaçou», para nos fazer compreender que deixou de haver prisão, para dizer que Jesus aniquilou a morada dos prisioneiros. Prisão onde já não haja portas nem ferrolhos deixa de poder ter cativos os seus reclusos. Ora, Jesus despedaçou essas portas; quem poderá voltar a pô-las? E os ferrolhos que quebrou: que homem poderá voltar a colocá-los? 

Quando os príncipes da Terra soltam os prisioneiros, enviando cartas de indulto, deixam ficar as portas e os guardas da prisão, para demonstrar àqueles que saem que podem ter de ali voltar, eles ou outros. Cristo não age desta maneira. Ao despedaçar as portas de bronze, dá testemunho de que não voltará a haver prisão, nem morte. 

E porque eram as portas «de bronze»? Porque a morte era impiedosa, inflexível, dura como o diamante. Durante todos os séculos que precederam Jesus Cristo, nunca recluso algum pudera fugir, até ao dia em que o Soberano dos céus desceu ao abismo para daí arrancar as vítimas.

João Crisóstomo (c. 345-407), presbítero de Antioquia, bispo de Constantinopla, doutor da Igreja 
Homilia sobre a palavra 'cruz' 

terça-feira, 4 de julho de 2017

Salva-nos, Senhor!



Ó meu Deus, o meu coração é como um vasto mar agitado pelas tempestades: que ele encontre em Ti a paz e o repouso. Tu ordenaste aos ventos e o mar que se acalmassem e, à tua voz, eles apaziguaram-se; vem apaziguar o alvoroço do meu coração, para que tudo em mim se torne calmo e tranquilo, para que Te possa possuir, Tu, o meu único bem, e Te possa contemplar, suave luz dos meus olhos, sem perturbação nem obscuridade. Ó meu Deus, que a minha alma, liberta dos pensamentos tumultuosos deste mundo, «se esconda à sombra das vossas asas» (Sl 16,8). Que encontre junto de Ti um lugar de renovação e de paz; e, repleta de alegria, possa cantar: «Deito-me em paz e logo adormeço, porque só Vós, Senhor, fazeis que eu repouse em segurança» (Sl 4,9). 

Que a minha alma descanse, peço-Te, ó meu Deus, que descanse da lembrança de tudo o que está sob o céu, que desperte unicamente para Ti, como está escrito: «Eu durmo, mas o meu coração vela» (Ct 5,2). A minha alma só está em paz e em segurança, ó meu Deus, debaixo das asas da tua proteção (Sl 90,4). Que ela permaneça eternamente em Ti e que seja abraçada pelo teu fogo. Que, elevando-se acima de si própria, Te contemple e cante alegremente os teus louvores. No meio das inquietações que me agitam, que os teus dons sejam a minha suave consolação, até que eu chegue a Ti, ó verdadeira paz.

Santo Agostinho (354-430), bispo de Hipona (norte de África), doutor da Igreja 
«Meditações», cap. 37