segunda-feira, 25 de setembro de 2017

ORA ET LABORA: «Tende cuidado com a maneira como ouvis»

ORA ET LABORA: «Tende cuidado com a maneira como ouvis»: «Que cada um esteja sempre pronto para escutar, mas seja lento para falar» (Tim 1,19). Sim, irmãos, digo-vos francamente [...], eu que mu...

«Tende cuidado com a maneira como ouvis»


«Que cada um esteja sempre pronto para escutar, mas seja lento para falar» (Tim 1,19). Sim, irmãos, digo-vos francamente [...], eu que muitas vezes vos falo a vosso pedido: a minha alegria é sem mancha quando me sento entre os ouvintes; a minha alegria é sem mancha quando escuto e não quando falo. É então que saboreio a palavra com toda a segurança, pois a minha satisfação não é ameaçada pela vanglória. Quem pode recear o precipício do orgulho se estiver sentado sobre a pedra sólida da verdade? «Escutarei e encher-me-ás de alegria e de júbilo», diz o salmista (Sl 50,10). É quando escuto que me sinto mais alegre; é o papel de ouvintes que nos mantém numa atitude de humildade. 

Pelo contrário, quando tomamos a palavra, [...] precisamos de uma certa contenção; pois, mesmo que não ceda ao orgulho, tenho receio de o fazer. Mas, se escuto, ninguém me pode roubar a alegria (Jo 16,22), porque ninguém é testemunha dela. É verdadeiramente a alegria do amigo do esposo de quem S. João diz que «fica de pé e escuta» (Jo 3,29). Fica de pé porque escuta. Também o primeiro homem escutava Deus de pé; quando escutou a serpente, caiu. O amigo de esposo fica, pois, «transbordante de alegria à voz do Esposo»; o que faz a sua alegria não é a sua voz de pregador ou de profeta, mas a voz do próprio Esposo.


Agostinho (354-430), bispo de Hipona (norte de África)
Discurso sobre o salmo 139,15; Sermões sobre S. João, n.º 57 

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

«Senhor, não mereço que entres em minha casa»

Na leitura do Evangelho, ouvimos Jesus louvar a nossa fé, associada à humildade. Quando prometeu ir a casa do centurião curar-lhe o servo, este respondeu: «Não mereço que entres em minha casa [...]. Mas diz uma palavra e o meu servo será curado». Ao considerar-se indigno, revela-se digno – digno não só de que Cristo entre em sua casa, mas também no seu coração. [...]

Pois não teria sido para ele grande alegria se o Senhor Jesus tivesse entrado em sua casa sem entrar no seu coração. Com efeito, Cristo, Mestre de humildade pelo seu exemplo e pelas suas palavras, sentou-Se à mesa em casa de um fariseu orgulhoso chamado Simão (Lc 7,36ss.); mas, embora Se sentasse à sua mesa, não entrou no seu coração: aí, «o Filho do Homem não tinha onde reclinar a cabeça» (Lc 9,58). Pelo contrário, não entra em casa do centurião, mas entra no seu coração. [...]

Por conseguinte, é a fé unida à humildade que o Senhor elogia neste centurião. Quando este diz: «Não mereço que entres em minha casa», o Senhor responde: «Digo-vos que nem mesmo em Israel encontrei tão grande fé». [...] O Senhor veio ao povo de Israel segundo a carne, para procurar primeiramente neste povo a sua ovelha perdida (cf Lc 15,4). [...] Nós, como homens, não podemos medir a fé dos homens. Foi Aquele que vê o fundo dos corações, Aquele a quem ninguém engana, que testemunhou como era o coração deste homem; ao ouvir as suas palavras repletas de humildade, responde-lhe com uma palavra que cura.

Santo Agostinho (354-430), bispo de Hipona (norte de África) 
Sermão 62 

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Ser de Cristo

"Olhais para as coisas segundo a aparência. Se alguém confia de si mesmo que é de Cristo, pense outra vez isto consigo mesmo..." (2ª Corintios 10.7). 

"Ser de Cristo" não é uma "tese" que você defende perante uma igreja, nem um "moto" que você repete para si e para outros. Mas é uma luta interior, travada dentro de si, que manifesta a sua perseverança pessoal, em mortificar a sua natureza falida e miserável, alimentando virtudes não experimentadas pelos sentidos humanos, nem entendida pela sua mente racionalista, luta interior que jamais acaba enquanto você estiver aqui e somente tem a sua coroação no encontro eterno com Cristo. Portanto, desça de seu pedestal ignóbil, baixe o seu nariz, envergue a sua coluna, poste a sua boca no chão e clame constantemente: "Tenha piedade de mim, Senhor, por que sou um pecador".

sábado, 26 de agosto de 2017

«Quem se humilha será exaltado»

Há uma humildade que vem do medo de Deus e há uma humildade que vem do próprio Deus. Há aquele que é humilde porque tem medo de Deus e o que é humilde porque conhece a alegria. Um deles, o que se humilhou porque teme a Deus, recebe a doçura no seu corpo, o equilíbrio dos sentidos e um coração permanentemente controlado. O outro, o que é humilde porque conhece a alegria, recebe uma grande simplicidade e um coração dilatado que já nada pode prender.

Isaac o Sírio (século VII)
monge perto de Mossul 
Discurso 58

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Nós deixámos tudo para Te seguir.

Ouvistes, meus irmãos, que Pedro e André abandonaram as redes para seguirem o Redentor ao primeiro apelo da sua voz (Mt 4,20). [...] 

Talvez algum de vós diga baixinho: «O que abandonaram aqueles dois pescadores para obedecer ao apelo do Senhor, eles que não tinham quase nada?» Nesta matéria, porém, temos de considerar mais as disposições do coração do que os bens que se possuem. Deixa muito aquele que nada retém para si; deixa muito aquele que abandona tudo, mesmo que esse tudo seja pouco. Nós, pelo contrário, conservamos com paixão aquilo que possuímos, e buscamos com o desejo aquilo que não temos. Sim, Pedro e André deixaram muito, pois um e outro abandonaram até o desejo de possuir. Abandonaram muito porque, renunciando aos seus bens, renunciaram também às suas ambições. Seguindo o Senhor, renunciaram a tudo o que poderiam ter desejado se O não tivessem seguido.

Gregório Magno (c. 540-604)

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Não te desvies!

"Ora, uma vez que uma só coisa é necessária (cf Lc 10,42), limitar-me-ei a ela, exortando-te, por amor Àquele a quem te ofereceste como sacrifício santo e agradável: lembra-te da tua vocação e, qual {...} tem sempre na memória os princípios de base que te fazem agir: guarda cuidadosamente aquilo que adquiriste; faz bem aquilo que fazes; nunca recues; pelo contrário, apressa-te e corre com passo ligeiro, sem tropeçares nas pedras do caminho, sem sequer levantares a poeira que te mancharia os pés; avança confiante, alegre e jubiloso. Mas segue com precaução pelo caminho da felicidade, sem te fiares, nem te entregares a quem queira desviar-te da tua vocação, entravar-te o caminho e impedir-te de seres fiel ao Altíssimo no estado de perfeição para o qual o Espírito do Senhor te chamou".
(Clara de Assis, 1193-1252)

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

«Eu estou no meio deles»

Aquele que celebra sozinho no coração do deserto 
É uma assembleia numerosa. 
Se dois se unirem para celebrar entre os rochedos, 
Aí estarão presentes milhões, miríades. 
Se três se reunirem, 
Um quarto estará no meio deles. 
Se forem seis ou sete, 
Estarão reunidos doze mil milhões. 
Se se puserem em fila, 
Encherão o firmamento de orações. 
Se estiverem crucificados sobre a rocha, 
E marcados com uma cruz de luz, 
A Igreja estará fundada. 
Se estiverem reunidos, 
O Espírito plana sobre as suas cabeças. 
E, quando terminam a sua oração, 
O Senhor levanta-Se e serve os seus servidores (cf Lc 12,37; Jo 13,4)

Efrém (c. 306-373), diácono da Síria, doutor da Igreja 
Hino inédito 

sábado, 12 de agosto de 2017

«Se morrer, dá muito fruto»

Ao ver que levavam o bispo Sixto para o martírio, Lourenço pôs-se a chorar. Não era o sofrimento do seu bispo que lhe arrancava lágrimas, mas o facto de este partir para o martírio sem ele. Por isso, pôs-se a interpelá-lo nestes termos: «Onde vais, meu pai, sem o teu filho? Apressas-te tanto em direção a quê, sem este teu diácono? Tu tinhas por hábito nunca oferecer o sacrifício sem ministro! [...] Dá pois prova de que escolheste um bom diácono, a quem confiaste o ministério do sangue do Senhor, com quem partilhas os sacramentos; recusar-te-ás a comungar com ele no sacrifício do sangue?» [...] 

Sixto respondeu a Lourenço: «Não te esqueço, meu filho, nem te abandono. Mas deixo-te maiores combates. Sou velho e já só aguento uma luta ligeira. Mas tu és jovem e hás de obter um triunfo bem mais glorioso contra o tirano. Logo virás ter comigo. Seca essas lágrimas. Dentro de três dias, seguir-me-ás.» [...] 

Três dias depois, foi dada ordem de prisão a Lourenço. Ordenaram-lhe que levasse os bens e os tesouros da igreja e ele prometeu obedecer; no dia seguinte, apresentou-se na companhia dos pobres. Perguntado onde estavam os tesouros que devia ter levado, apontou para os pobres, dizendo: «Eis os tesouros da Igreja. Teria Cristo tesouros melhores que estes, acerca dos quais disse: "Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes"?» (Mt 25,40) Lourenço apresentou aqueles tesouros e saiu vencedor, porque o seu algoz não teve vontade de lhos tirar. Mas, cheio de raiva, mandou-o queimar vivo.

Ambrósio (c. 340-397), bispo de Milão 
Sobre os Ofícios dos ministros I, 84; II, 28; PL 16, 84 

sábado, 29 de julho de 2017

«Uma mulher, de nome Marta, recebeu-O em sua casa»

As duas irmãs Marta e Maria eram muito próximas, não só pelo sangue, mas também pela piedade. Ligadas ambas ao Senhor, colocaram-se, com um só coração, ao seu serviço durante o tempo da sua vida neste mundo. Marta recebeu-O como se recebe um viajante. E contudo, era uma serva que acolhia o seu Senhor, uma doente que acolhia o seu Salvador, uma criatura que recebia o seu Criador. [...] Com efeito, o Senhor tinha querido tomar a forma de servo, a fim de poder ser alimentado por servos. [...] 

Eis que o Senhor é acolhido como hóspede: «Veio para o que era seu, e os seus não O receberam. Mas, a quantos O receberam, aos que nele creem, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus» (Jo 1,11-12). Os servos assim adotados tornaram-se seus irmãos, os cativos assim libertados tornaram-se co-herdeiros com Ele. Mas que nenhum de vós diga: «Felizes aqueles que tiveram a dita de receber Cristo em sua casa!» Nâo tenhas pena nem te lamentes por teres nascido numa época onde não podes ver o Senhor em carne e osso. Pois Ele não te retirou o seu favor, Ele que declarou: «Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes» (Mt 25,40).

Santo Agostinho (354-430), 
bispo de Hipona (norte de África), 
doutor da Igreja 
Sermão 103, 1, 2; PL 38, 613 

quarta-feira, 26 de julho de 2017

«Quem tem ouvidos, oiça».

Um semeador foi semear o seu grão e uma parte caíu ao longo do caminho, outra parte em terra boa. Três partes perderam-se, só uma deu fruto. Mas o semeador não deixou de semear o seu campo; bastou-lhe que uma parte fosse conservada para não suspender o seu trabalho. É impossível que o grão que eu lanço neste momento no meio de tão vasto auditório não venha a germinar. Se nem todos me escutarem, um terço me escutará; se não for um terço, será um décimo; se nem um décimo me escutasse, desde que um único membro desta numerosa assembleia me ouvisse, eu não deixaria de falar.

A salvação de uma só ovelha não é pouca coisa. O Bom Pastor deixou as outras noventa e nove para ir a correr atrás da ovelha que se tinha perdido (Lc 15,4). Também eu não poderia desprezar quem quer que fosse. Mesmo que seja só um, é um homem, um ser querido por Deus. Mesmo que seja um escravo, não desdenharei dele; porque não procuro a condição social, mas o valor pessoal, não procuro o poder ou a servidão, mas o homem. Mesmo que só haja um, será sempre um homem, aquele para quem o sol, o ar, as fontes e o mar foram criados, os profetas enviados, a Lei dada. Será sempre aquele ser por quem o Filho único de Deus Se fez homem. O meu Senhor foi imolado, o seu sangue foi derramado, e eu ousaria desprezar quem quer que fosse? [...]

Não, não deixarei de semear a palavra, mesmo que ninguém me escute. Sou médico, proponho o remédio. Devo ensinar, foi-me dada ordem de instruir, porque está escrito: «Estabeleci-te como sentinela sobre a casa de Israel» (Ez 3,17).

João Crisóstomo (c. 345-407), 
presbítero de Antioquia, 
bispo de Constantinopla, 
doutor da Igreja

domingo, 23 de julho de 2017

«Foi um inimigo que fez isso.»

Escrevo-vos, irmãos bem amados, para que saibais que, desde o dia em que Adão foi criado até ao fim do mundo, o Maligno fez e fará guerra constante aos santos (Ap 13,7). [...] Contudo, são poucos os que se dão conta de que o saqueador das almas coabita com eles nos seus corpos, muito perto das suas almas. Vivem na tribulação e não há neste mundo ninguém que os possa reconfortar. Por isso, olham o olhar para o Céu e aí colocam a sua esperança, contando receber alguma coisa dentro de si próprios. Desta forma, e graças à armadura do Espírito (Ef 6,13), vencerão. Com efeito, é do Céu que recebem a força, que permanece escondida aos olhos da carne. Enquanto procurarem Deus com todo o seu coração, a força de Deus virá secretamente em seu auxílio a todo o momento. [...] É precisamente porque tocam com o dedo na sua fraqueza, porque são incapazes de vencer, que eles solicitam ardentemente a armadura de Deus e, assim revestidos com o equipamento do Espírito para o combate (Ef 6,13), tornam-se vitoriosos. [...] 

Sabei, pois, irmão bem amados, que em todos os que preparam a sua alma para se tornarem terra boa para a semente celeste, o inimigo apressa-se a semear o seu joio. [...] Sabei também que aqueles que não procuram o Senhor com todo o coração não são tentados por Satanás de forma tão evidente; é mais às escondidas e por manhas que ele tenta [...] afastá-los de Deus. 

Mas agora, irmãos, tende coragem e não receeis. Não vos deixeis assustar com imaginações suscitadas pelo inimigo. Na oração, não vos entregueis a uma agitação confusa, multiplicando gritos sem nexo, mas acolhei a graça do Senhor na contrição e no arrependimento. [...] Tende coragem, reconfortai-vos, resisti, preocupai-vos com a vossa alma, perseverai zelosamente na oração. [...] Porque todos os que procuram Deus com verdade receberão uma força divina na sua alma e, recebendo essa unção celeste, sentirão em si o gozo e a doçura do mundo que há de vir. Que a paz do Senhor, aquela que esteve com todos os santos pais e os guardou das tentações, permaneça também convosco.
Macário (?-390), Eremita do Egipto 
Mensagens espirituais, n.º 51 

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Valores de Servo


Mas, afinal o que significa ter valores de servo?
Em que implica, para o líder espiritual, seguir esses valores?
Ter valores de servo significa exercer o "direito" de entregar os seus direitos a Deus, que julga retamente.
Significa, também, ser um equipador e modelo para os outros.
Isto não é o que, normalmente, espera-se do líder, especialmente quando a pessoa ou organização segue a clássica visão piramidal, onde o líder está sempre posicionado acima de seus seguidores, sendo servido por eles.
A visão cristã de liderança, porém, é diametralmente oposta à visão clássica, pois se baseia em uma convicção alternativa, onde o líder espiritual serve liderando e lidera servindo.
Na verdade, o líder espiritual nada mais faz do que imitar Jesus, "que não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate de muitos" (Mateus 20:28).
Se o líder espiritual não entender a dimensão do que significa ser servo, ele viverá em constante tensão voltando apenas para si mesmo, exigindo seus direitos, sua posição, etc.
O líder cristão deve liderar servindo, capacitando os outros para multiplicar o ministério.
Elias Dantas em O desafio da liderança.
Rev. Elias Dantas, foi meu professor no 1º ano do SPS em Campinas. 
Hoje vive nos Estados Unidos

sexta-feira, 7 de julho de 2017

«Prefiro a misericórdia»

Ao amares o teu inimigo, desejas que ele seja para ti um irmão. Não amas o que ele é, mas aquilo em que queres que ele se torne. Imaginemos um pedaço de madeira de carvalho em bruto. Um artesão hábil vê essa madeira, cortada na floresta; a madeira agrada-lhe; não sei o que quer fazer dela, mas não é para a deixar como está que o artista gosta dela. A sua arte faz com quepense em que é que se pode transformar essa madeira; o seu amor não é dirigido à madeira em bruto: ele ama o que fará com ela e não a madeira em bruto. 

Foi assim que Deus nos amou quando éramos pecadores. Na verdade, Ele disse: «Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes». Ter-nos-á Ele amado pecadores para que permaneçamos pecadores? O Artesão viu-nos como um pedaço de madeira em bruto, vindo da floresta; porém, o que Ele tinha em vista era a obra que nela faria e não a madeira em si, nem a floresta. 

Contigo passa-se a mesma coisa: vês o teu inimigo opor-se a ti, encher-te de palavras mordazes, tornar-se rude nas afrontas que te faz, perseguir-te com o seu ódio. Mas tu sabes que ele é um homem. Vês tudo o que esse homem fez contra ti, mas também vês nele aquilo que foi feito por Deus. Aquilo que ele é, enquanto homem, é obra de Deus; o ódio que te tem é obra dele. E que dizes tu para contigo? «Senhor sê benevolente para com ele, perdoa-lhe os pecados, inspira-lhe o teu temor, converte-o.» Não amas nesse homem aquilo que ele é, mas aquilo que queres que ele venha a ser. Assim, quando amas um inimigo, amas nele um irmão.

Santo Agostinho (354-430), bispo de Hipona (norte de África), doutor da Igreja 
Comentário sobre a primeira carta de João, § 8,10 

quarta-feira, 5 de julho de 2017

A libertação dos cativos

Naquele dia, Jesus Cristo entrou no abismo e conquistou os infernos. Naquele dia, «Ele despedaçou as portas de bronze, quebrou os ferrolhos de ferro», como disse Isaías (Is 45,2). Reparemos bem nestas expressões. Não é dito que «abriu» as portas de bronze, nem que as tirou de seus gonzos, mas que «as despedaçou», para nos fazer compreender que deixou de haver prisão, para dizer que Jesus aniquilou a morada dos prisioneiros. Prisão onde já não haja portas nem ferrolhos deixa de poder ter cativos os seus reclusos. Ora, Jesus despedaçou essas portas; quem poderá voltar a pô-las? E os ferrolhos que quebrou: que homem poderá voltar a colocá-los? 

Quando os príncipes da Terra soltam os prisioneiros, enviando cartas de indulto, deixam ficar as portas e os guardas da prisão, para demonstrar àqueles que saem que podem ter de ali voltar, eles ou outros. Cristo não age desta maneira. Ao despedaçar as portas de bronze, dá testemunho de que não voltará a haver prisão, nem morte. 

E porque eram as portas «de bronze»? Porque a morte era impiedosa, inflexível, dura como o diamante. Durante todos os séculos que precederam Jesus Cristo, nunca recluso algum pudera fugir, até ao dia em que o Soberano dos céus desceu ao abismo para daí arrancar as vítimas.

João Crisóstomo (c. 345-407), presbítero de Antioquia, bispo de Constantinopla, doutor da Igreja 
Homilia sobre a palavra 'cruz' 

terça-feira, 4 de julho de 2017

Salva-nos, Senhor!



Ó meu Deus, o meu coração é como um vasto mar agitado pelas tempestades: que ele encontre em Ti a paz e o repouso. Tu ordenaste aos ventos e o mar que se acalmassem e, à tua voz, eles apaziguaram-se; vem apaziguar o alvoroço do meu coração, para que tudo em mim se torne calmo e tranquilo, para que Te possa possuir, Tu, o meu único bem, e Te possa contemplar, suave luz dos meus olhos, sem perturbação nem obscuridade. Ó meu Deus, que a minha alma, liberta dos pensamentos tumultuosos deste mundo, «se esconda à sombra das vossas asas» (Sl 16,8). Que encontre junto de Ti um lugar de renovação e de paz; e, repleta de alegria, possa cantar: «Deito-me em paz e logo adormeço, porque só Vós, Senhor, fazeis que eu repouse em segurança» (Sl 4,9). 

Que a minha alma descanse, peço-Te, ó meu Deus, que descanse da lembrança de tudo o que está sob o céu, que desperte unicamente para Ti, como está escrito: «Eu durmo, mas o meu coração vela» (Ct 5,2). A minha alma só está em paz e em segurança, ó meu Deus, debaixo das asas da tua proteção (Sl 90,4). Que ela permaneça eternamente em Ti e que seja abraçada pelo teu fogo. Que, elevando-se acima de si própria, Te contemple e cante alegremente os teus louvores. No meio das inquietações que me agitam, que os teus dons sejam a minha suave consolação, até que eu chegue a Ti, ó verdadeira paz.

Santo Agostinho (354-430), bispo de Hipona (norte de África), doutor da Igreja 
«Meditações», cap. 37 

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Converte-nos e seremos convertidos!

 Converte-nos a ti, SENHOR, e seremos convertidos; renova os nossos dias como dantes. Lam 5:21 

Não há da parte de qualquer ser humano, absolutamente qualquer vontade para buscar a Deus, a não que Ele próprio o faça querer. O ser humano sempre desejará buscar a si mesmo como causa e consequência de sua vida. Como bem já afirmava o Profeta Jeremias em suas Lamentações (5.21): "Converte-nos a Ti. Senhor e seremos convertidos". Portanto jamais deixemos de fazer esta oração e assumamos nossa natureza decaída a fim de encontrarmos  em Deus a verdadeira salvação de nossa vida. Somente em Cristo e não em nós mesmos poderemos encontrar alívio eterno para nossa alma. Kyrie eleisson.