segunda-feira, 18 de setembro de 2017

«Senhor, não mereço que entres em minha casa»

Na leitura do Evangelho, ouvimos Jesus louvar a nossa fé, associada à humildade. Quando prometeu ir a casa do centurião curar-lhe o servo, este respondeu: «Não mereço que entres em minha casa [...]. Mas diz uma palavra e o meu servo será curado». Ao considerar-se indigno, revela-se digno – digno não só de que Cristo entre em sua casa, mas também no seu coração. [...]

Pois não teria sido para ele grande alegria se o Senhor Jesus tivesse entrado em sua casa sem entrar no seu coração. Com efeito, Cristo, Mestre de humildade pelo seu exemplo e pelas suas palavras, sentou-Se à mesa em casa de um fariseu orgulhoso chamado Simão (Lc 7,36ss.); mas, embora Se sentasse à sua mesa, não entrou no seu coração: aí, «o Filho do Homem não tinha onde reclinar a cabeça» (Lc 9,58). Pelo contrário, não entra em casa do centurião, mas entra no seu coração. [...]

Por conseguinte, é a fé unida à humildade que o Senhor elogia neste centurião. Quando este diz: «Não mereço que entres em minha casa», o Senhor responde: «Digo-vos que nem mesmo em Israel encontrei tão grande fé». [...] O Senhor veio ao povo de Israel segundo a carne, para procurar primeiramente neste povo a sua ovelha perdida (cf Lc 15,4). [...] Nós, como homens, não podemos medir a fé dos homens. Foi Aquele que vê o fundo dos corações, Aquele a quem ninguém engana, que testemunhou como era o coração deste homem; ao ouvir as suas palavras repletas de humildade, responde-lhe com uma palavra que cura.

Santo Agostinho (354-430), bispo de Hipona (norte de África) 
Sermão 62 

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Ser de Cristo

"Olhais para as coisas segundo a aparência. Se alguém confia de si mesmo que é de Cristo, pense outra vez isto consigo mesmo..." (2ª Corintios 10.7). 

"Ser de Cristo" não é uma "tese" que você defende perante uma igreja, nem um "moto" que você repete para si e para outros. Mas é uma luta interior, travada dentro de si, que manifesta a sua perseverança pessoal, em mortificar a sua natureza falida e miserável, alimentando virtudes não experimentadas pelos sentidos humanos, nem entendida pela sua mente racionalista, luta interior que jamais acaba enquanto você estiver aqui e somente tem a sua coroação no encontro eterno com Cristo. Portanto, desça de seu pedestal ignóbil, baixe o seu nariz, envergue a sua coluna, poste a sua boca no chão e clame constantemente: "Tenha piedade de mim, Senhor, por que sou um pecador".

sábado, 26 de agosto de 2017

«Quem se humilha será exaltado»

Há uma humildade que vem do medo de Deus e há uma humildade que vem do próprio Deus. Há aquele que é humilde porque tem medo de Deus e o que é humilde porque conhece a alegria. Um deles, o que se humilhou porque teme a Deus, recebe a doçura no seu corpo, o equilíbrio dos sentidos e um coração permanentemente controlado. O outro, o que é humilde porque conhece a alegria, recebe uma grande simplicidade e um coração dilatado que já nada pode prender.

Isaac o Sírio (século VII)
monge perto de Mossul 
Discurso 58

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Nós deixámos tudo para Te seguir.

Ouvistes, meus irmãos, que Pedro e André abandonaram as redes para seguirem o Redentor ao primeiro apelo da sua voz (Mt 4,20). [...] 

Talvez algum de vós diga baixinho: «O que abandonaram aqueles dois pescadores para obedecer ao apelo do Senhor, eles que não tinham quase nada?» Nesta matéria, porém, temos de considerar mais as disposições do coração do que os bens que se possuem. Deixa muito aquele que nada retém para si; deixa muito aquele que abandona tudo, mesmo que esse tudo seja pouco. Nós, pelo contrário, conservamos com paixão aquilo que possuímos, e buscamos com o desejo aquilo que não temos. Sim, Pedro e André deixaram muito, pois um e outro abandonaram até o desejo de possuir. Abandonaram muito porque, renunciando aos seus bens, renunciaram também às suas ambições. Seguindo o Senhor, renunciaram a tudo o que poderiam ter desejado se O não tivessem seguido.

Gregório Magno (c. 540-604)

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Não te desvies!

"Ora, uma vez que uma só coisa é necessária (cf Lc 10,42), limitar-me-ei a ela, exortando-te, por amor Àquele a quem te ofereceste como sacrifício santo e agradável: lembra-te da tua vocação e, qual {...} tem sempre na memória os princípios de base que te fazem agir: guarda cuidadosamente aquilo que adquiriste; faz bem aquilo que fazes; nunca recues; pelo contrário, apressa-te e corre com passo ligeiro, sem tropeçares nas pedras do caminho, sem sequer levantares a poeira que te mancharia os pés; avança confiante, alegre e jubiloso. Mas segue com precaução pelo caminho da felicidade, sem te fiares, nem te entregares a quem queira desviar-te da tua vocação, entravar-te o caminho e impedir-te de seres fiel ao Altíssimo no estado de perfeição para o qual o Espírito do Senhor te chamou".
(Clara de Assis, 1193-1252)

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

«Eu estou no meio deles»

Aquele que celebra sozinho no coração do deserto 
É uma assembleia numerosa. 
Se dois se unirem para celebrar entre os rochedos, 
Aí estarão presentes milhões, miríades. 
Se três se reunirem, 
Um quarto estará no meio deles. 
Se forem seis ou sete, 
Estarão reunidos doze mil milhões. 
Se se puserem em fila, 
Encherão o firmamento de orações. 
Se estiverem crucificados sobre a rocha, 
E marcados com uma cruz de luz, 
A Igreja estará fundada. 
Se estiverem reunidos, 
O Espírito plana sobre as suas cabeças. 
E, quando terminam a sua oração, 
O Senhor levanta-Se e serve os seus servidores (cf Lc 12,37; Jo 13,4)

Efrém (c. 306-373), diácono da Síria, doutor da Igreja 
Hino inédito 

sábado, 12 de agosto de 2017

«Se morrer, dá muito fruto»

Ao ver que levavam o bispo Sixto para o martírio, Lourenço pôs-se a chorar. Não era o sofrimento do seu bispo que lhe arrancava lágrimas, mas o facto de este partir para o martírio sem ele. Por isso, pôs-se a interpelá-lo nestes termos: «Onde vais, meu pai, sem o teu filho? Apressas-te tanto em direção a quê, sem este teu diácono? Tu tinhas por hábito nunca oferecer o sacrifício sem ministro! [...] Dá pois prova de que escolheste um bom diácono, a quem confiaste o ministério do sangue do Senhor, com quem partilhas os sacramentos; recusar-te-ás a comungar com ele no sacrifício do sangue?» [...] 

Sixto respondeu a Lourenço: «Não te esqueço, meu filho, nem te abandono. Mas deixo-te maiores combates. Sou velho e já só aguento uma luta ligeira. Mas tu és jovem e hás de obter um triunfo bem mais glorioso contra o tirano. Logo virás ter comigo. Seca essas lágrimas. Dentro de três dias, seguir-me-ás.» [...] 

Três dias depois, foi dada ordem de prisão a Lourenço. Ordenaram-lhe que levasse os bens e os tesouros da igreja e ele prometeu obedecer; no dia seguinte, apresentou-se na companhia dos pobres. Perguntado onde estavam os tesouros que devia ter levado, apontou para os pobres, dizendo: «Eis os tesouros da Igreja. Teria Cristo tesouros melhores que estes, acerca dos quais disse: "Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes"?» (Mt 25,40) Lourenço apresentou aqueles tesouros e saiu vencedor, porque o seu algoz não teve vontade de lhos tirar. Mas, cheio de raiva, mandou-o queimar vivo.

Ambrósio (c. 340-397), bispo de Milão 
Sobre os Ofícios dos ministros I, 84; II, 28; PL 16, 84